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ReviewReviewReviewReviewReviewJun 20, '08 4:41 PM
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Um português singular


“A aventura em Portugal acaba na pastelaria.”
Alexandre O´Neill


Se Alexandre O´Neill fosse vivo faria agora 84 anos. O poeta nasceu em Lisboa, a 19 de Dezembro de 1924, e faleceu a 21 de Agosto de 1986. Fez os estudos liceais, frequentou a Escola Náutica (o curso de pilotagem), trabalhou na Previdência, nos seguros, nas bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian, empregou-se numa editora, fez parte da redacção de uma revista que nunca saiu e esteve ligado trinta anos ao universo da publicidade. Apesar de uma vida inteira como publicitário, ficaria conhecido através dos versos e dos livros de poesia que deixou. Não tanto quanto merecia, é certo, mas o rastilho poético e humano que nos legou dá certamente para incendiar umas quantas almas.

O´Neill viveu os primeiros anos da sua vida na rua da Alegria, em Lisboa. O seu testemunho deste período é de uma sinceridade avassaladora: “Era um chato, uma tristeza, era filho de gente que não me deixava sair à rua. Era um miúdo fechado, um bocado triste, e passava muito tempo à janela.(...) É curioso porque morava na Rua da Alegria e ela provocava-me um sentimento de tristeza, quando via subir as carroças com os trabalhadores de aspecto cansado...interessava-me o espectáculo das pessoas.” Parece que os momentos mais estimulantes e coloridos da sua infância foram passados durante o período de férias de verão, entre os seis e os dezassete anos, em Amarante, terra natal da mãe.

O poeta iniciou os seus estudos em 1932. Em 1946 zanga-se com o pai por um motivo fútil, indo viver para casa do tio António Vahia de Castro, na Avenida Visconde Valmor, em Lisboa. A propósito desta zanga, O´Neill gostava de reproduzir o diálogo que então travara com o pai:

“- Alexandre, leva o guarda chuva.
- Não é preciso, pai. Não chove.
- Chove. Leva o guarda chuva.
- Não é preciso, pai.
- Já te disse que levas o guarda-chuva.
- Não levo o guarda-chuva e nunca mais cá apareço...”

Terão ficado dezasseis anos sem se ver!

O´Neill assistiu quando tinha 18 anos aos diálogos e monólogos de Teixeira Pascoaes no Café Central, em Amarante, e foi em 1947, na revista Mundo Literário, que publicou os seus primeiros textos. Foram anos da “aventura surrealista”, balizados por dois encontros fundamentais: 1945 o encontro com Mário Cesariny, no café “A Cubana”, determinante para a formação, dois anos mais tarde, do Grupo Surrealista de Lisboa. Este movimento, fruto da sua época, tinha nas suas “fileiras” nomes como António Pedro, Mário Cesariny, José Augusto França, Cândido Costa Pinto, Vespeira, Moniz Pereira e Alexandre O´Neill. Surgiu como uma provocação ao regime político vigente e à poesia neo-realista. Como fundador do “Grupo Surrealista de Lisboa” publica o volume de colagens A Ampola Miraculosa, integrado na colecção dos Cadernos Surrealistas.

Em 1950, abandonou o movimento, expressando o seu desagrado pelo rumo decadente e simulado em que o grupo mergulhara. As razões da discórdia prenderam-se com uma disciplina ideológica a que o poeta era avesso, não discordando contudo dos princípios programáticos do surrealismo: a libertação total do homem e a libertação total da arte. O que implicava assim uma poesia de “intervenção”, exortando os homens a libertarem-se dos constrangimentos que os tolhem e os oprimem (familiares, sociais, morais, quotidianos, psicológicos, etc) e, por outro, a libertação da palavra de todas as formas de censura (estética, moral, lógica, do bom senso). Daí resultam duas das obsessões mais fortes de O´Neill: a bicicleta e a palavra! A bicicleta aparece como símbolo, pois pela sua configuração a bicicleta é uma materialização do sinal convencional que em matemática representa o infinito, e dessa forma funciona como veículo de libertação da chateza do quotidiano. A libertação da palavra funciona como sinédoque da libertação do homem. A poesia queria-se, portanto, ligada à vida, tal como os surrealistas apregoavam “viver à vontade em estado poético”. A poesia de O´Neill ficaria marcada para sempre com este cunho de artesanato da palavra, de artefacto, de exercício verbal, decorrentes da experiência surrealista!

Foi também por essa altura que apareceu em Lisboa, a surrealista francesa, Nora Mitrani, a paixão dorida da sua vida. A partida de Mitrani para França causa um enorme alvoroço na sua vida, já que os seus familiares, conscientes da relação, interpõe-se, chegando a utilizar um agente da P.I.D.E para lhe retirar o passaporte, impedindo assim o poeta de visitar a amada. É neste período turbulento que Alexandre O´Neill escreve o poema Um Adeus Português, expressando aqui toda a sua mágoa, verbalizando toda a sua revolta interior: “Nos teus olhos altamente perigosos/ vigora ainda o mais rigoroso amor/ a luz de ombros puros e a sombra/ de uma angústia já purificada/(...) Nesta curva tão terna e lancinante/ que vai ser que já é o teu desaparecimento/ digo-te adeus/ e como um adolescente/ tropeço de ternura/ por ti”. Nora Mitrani suicidou-se em 1961 e O´Neil perde aqui a sua mais absoluta concretização do amor: "Para ti o tempo já não urge/ Amiga/ Agora és morta/ (Suicida?) Se eu pudesse dizer-te: - Senta-te aqui/ nos meus joelhos, deixa-me alisar-te, / Ó amável bichinho, o pêlo fino“. Conta-se que o poeta nunca mais encontraria Nora Mitrani ­ “quando a fui procurar em Paris, já tinha morrido”- mas que esta chegou a ler o Um Adeus Português. A resposta que esta lhe deixou terá sido: “Li o teu Adeus. Fiquei atrozmente comovida”.

O Poeta da Publicidade

Afastado do Grupo Surrealista de Lisboa, colaborou durante alguns anos nos Cadernos de Poesia. Vasto foi o seu currículo, onde constam inúmeras colaborações para jornais, revistas, televisão e uma especial participação nos filmes de Fernando Lopes. Curioso foi o facto de Alexandre O´Neill ter estado ligado durante trinta anos ao mundo da publicidade.

A publicidade foi a forma menos trabalhosa que ele encontrou para ganhar o sustento de que necessitava. Tal como a maioria dos artistas portugueses não pôde viver da sua arte. Afirmava “viver de versos e sobreviver de publicidade”. Pois, apesar de se sentir como peixe dentro de água na destreza e à vontade com as palavras do universo publicitário, nunca chegou a criar nenhum vínculo afectivo com a profissão. O mesmo se pode dizer que era profundamente crítico em relação ao “mundo dos slogans” em que vivia submerso, pois pensava que a sociedade em que vivemos é intragável já que nos propõe consumir coisas que conscientemente nem consumiríamos ­ a vida nas cidades, os autocarros a transbordar, os refrescos de anúncio, etc. Como criador publicitário são conhecidos alguns dos seus slogans que ainda hoje se usam nem que seja apenas para abrilhantar as conversas de ocasião: “Há mar e mar, há ir e voltar”, “Ele não merece mas vota P.S”, “Bosch é Bom”, ou outros que, dado o teor sarcástico, devem ser reservados para outros lugares menos públicos.

Alexandre O´Neill era um poeta discreto, ao contrário da sua poesia. O O´Neill, como era conhecido, gostava de fazer poemas, escrevê-los, reescrevê-los, guardá-los e até mesmo esquecê-los para mais tarde voltar a pegar neles, porque para ele, o mais importante e difícil era saber se os poemas se aguentavam ou não: “Acaba mal o teu verso/ mas fá-lo com desígnio: / é um mal que não é mal, / é lutar contra o bonito” (O País Relativo in Feira Cabisbaixa- edições Ulisseia).

A 9 de Abril de 1986, Alexandre O´Neill é internado, após acidente cardíaco, na unidade de cuidados intensivos do Hospital de Santa Cruz, em Carnaxide, sendo transferido para o Hospital Egas Moniz, onde viria a falecer a 21 de Agosto. O seu último livro é melancólico, triste, impressionando pelo tom amargurado em que foi escrito, momento em que poeta aproveita para destilar os seus últimos versos desejantes: “Dai-nos, meu Deus, um pequeno absurdo quotidiano que seja,/ Que o absurdo, mesmo em curtas doses, /defende da melancolia / e nós somos tão propenso a ela.”

Da obra publicada em vida destacam-se os livros: No Reino da Dinamarca (1958), Abandono Vigiado (1960), Poemas com Endereço (1962), Feira Cabisbaixa (1965), De Ombro na Ombreira (1969), As Andorinhas Não Têm Restaurante (1970), Entre a Cortina e a Vidraça (1972), A Saca de Orelhas (1979), Uma Coisa em Forma de Assim (1980), As Horas já de Números Vestidas (1981), O Príncipio da Utopia, o Príncipio de Realidade Seguidos de Ana Brite, Balada tão ao Gosto Popular Português & Vários outros Poemas (1986).

Fernando Nunes

Fonte:http://www.ruibebiano.net/zonanon/non/letras/fnoneill.html


1 Comment
cuanhama wrote on Jun 27, '08
Vilma eu não conhecia a biografia deste poeta taciturno,que muito aprecio.Assim se vê a vantagem do seu site,que todos compartilhamos.um bj
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